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Las Vegas tupiniquim

Enquanto o futuro das casas de jogos não é decidido na Justiça, os bingos tomam ares de cassino e viram mania.

Considerados jogos de azar e contravenção penal pelo Ministério Público, os bingos quase fecharam em janeiro. Mas por conta de uma leva de liminares concedidas à Associação Brasileira de Bingos, eles continuam a todo vapor e pipocam nas grandes cidades. Tentar a sorte em máquinas de videobingo ou em cartelas de números virou mania entre milhares de brasileiros. Num país em que os cassinos são proibidos, os bingos tomaram emprestadoo glamour de Las Vegas e prosperaram nos mais diversos pontos:
da badalação da avenida Sernambetiba, na Barra da Tijuca, no Rio,aos arredores da avenida Paulista, o maior centro econômico e financeiro do Brasil.

O jogo, que antes era restrito aos bazares beneficentes – normalmente frequentados pelo público maduro –, agora tem uma legião de adeptos, que variam de idade, sexo e condição financeira. É o caso da universitária Fernanda Marques Luppi, 22 anos. Ela descobriu no jogo uma nova opção de diversão noturna. “Ganhei R$ 20 logo na primeira vez. Fui com um casal de amigos e ficamos lá a noite inteira”, conta. Fernanda incluiu o bingo à sua programação noturna, como ir a um bar ou a uma danceteria. Além de estar conquistando um público mais jovem, o bingo já se consolidou como uma das formas de lazer favoritas entre casais mais maduros. Há quatro anos, a dona-de-casa Maria José Oliveira Munhoz, 55 anos, e o projetista João Munhoz Júnior, 51, reservam as noites de sábado para tentar a sorte no jogo. Para o casal, o passeio tem clima de programa a dois. “Antes de descobrirmos o bingo, costumávamos sair para jantar. Nós jogamos por prazer e não para ganhar dinheiro”, revela Maria José, que até fez amigos por conta do hábito.

Mesmo com as amizades nascidas nas mesas de apostas, as casas de bingos não oferecem um clima propício para a descontração. Afinal, mesmo para quem não tem pretensões de fazer fortuna, jogo é jogo e, de certa forma, envolve disputa. Em São Paulo está o maior bingo do País, o Imperador. Com 4,2 mil m2, a casa tem capacidade para atender mil jogadores simultaneamente e conta com 200 máquinas de videobingo. A pouca luz dos salões e a fumaça dos cigarros traduzem a ansiedade dos que esperam bons resultados. “Um dia passei sete horas jogando porque, como o ambiente é fechado, você nem vê o tempo passar. Quando entrei, fazia um dia lindo de sol e ao sair já era noite”, relembra a auxiliar de enfermagem Lucimar Torchi Lázaro, 22 anos.

Enquanto alguns encaram o bingo como diversão, outros se tornam vítimas. O caminho do hábito para o vício é curto. Prova disso são os pacientes do Ambulatório do Jogo Patológico (Amjo) do Hospital das Clínicas de São Paulo, que existe desde 1998. Segundo o neuropsicólogo Daniel Fuentes, coordenador do ambulatório, a maioria dos pacientes que procuram o grupo é jogador de bingo. “Há uma estimativa de que 3% da população brasileira desenvolva compulsão por apostas. A casa de jogo não provoca o vício, mas a sua oferta instiga o jogador a manifestar um comportamento doentio”, explica Fuentes.

De acordo com o coordenador, há 15 anos não havia um número tão significativo de jogadores patológicos no País. O quadro se agravou com o videopôquer e estourou com a abertura das casas de bingo.“Em literaturas internacionais, a proporção de viciados em jogo é desete homens para uma mulher. No ambulatório essa proporção é de um para uma”, afirma Fuentes. “O Brasil tem uma realidade diferenteda dos outros países porque as mulheres têm maior acesso às casas de jogos”, conclui. A cidade de São Paulo concentra 60% das casas de bingo do Brasil e o maior número de jogadores viciados. Além do Amjo, existem grupos de apoio que trabalham nos moldes dos Alcoólicos Anônimos, como os Jogadores Anônimos (J.A.), que já atenderam maisde 800 pessoas desde 1996.

Assim como os jogadores compulsivos são considerados viciados, o Ministério Público Federal trata os bingos como um jogo de azar previsto na Lei das Contravenções Penais. A promessa do Grupo Nacional de Combate ao Crime Organizado, formado pelos Ministérios Públicos Estaduais de todo o País, era de que a partir de 1º de janeiro todas as casas de jogos seriam fechadas. No entanto, elas continuam funcionando a custo de incontáveis liminares e interpretações judiciais, desde que a Caixa Econômica Federal deixou de expedir autorizações de funcionamento, em 31 de dezembro de 2001. No começo deste ano, a 10ª Vara Federal de Fortaleza concedeu liminar favorável aos associados da Associação Brasileira de Bingos (Abrabin). “Existem dezenas de outras liminares em todo o Brasil, pelas mais diversas varas. Em 90% dos casos, a Justiça é favorável ao funcionamento das casas”, afirma Olavo Sales da Silveira, presidente da entidade.

A Abrabin, que agrega 1.200 casas associadas, usa da organização estrutural dos bingos para qualificá-los como atividade econômica. Segundo a associação, o público diário dos bingos varia de 500 a1.500 pessoas por casa. A categoria lucra cerca de R$ 20 milhõespor mês e gera, direta e indiretamente, pelo menos 320 mil empregos.“É uma atividade lícita, porém desregulamentada. É preciso umalei federal para garantir mais lucros para a economia e gerarmais empregos”, alega Silveira.

Para o promotor do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, Rodrigo Canelas Dias, a falta de regulamentação das casas de bingo facilita a contravenção. “Um estabelecimento que não é fiscalizado é uma porta aberta para a lavagem de dinheiro, para a prostituição e para o narcotráfico. Se os bingos forem mesmo legalizados, deve-se criar um órgão de fiscalização”, explica Dias. “Se o governo optar por legalizar os bingos, é bom estar consciente da confusão jurídica que estará causando”, completa o promotor.

Enquanto a briga judicial parece não chegar ao fim, os jogadores, impulsionados pela simples diversão ou pelo comportamento compulsivo, lotam as casas de bingo, que por sua vez usam artifícios como cortesias (café, água, refrigerante e chocolates, todos artigos de caráter estimulante), ambientes fechados e prêmios de até R$ 50 mil para prender seus adeptos e indiretamente incluí-los na briga. Pelo visto, não é só a confusão jurídica que envolve esse impasse.
por Marcos Pernambuco - revista Isto É


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